“Tudo começara como uma página de romance. Mas agora, terminado o encanto, as coisas se apresentavam como uma realidade sombria”. Escrita no século passado por Agatha Christie, autora de ficção mais vendida da história, esta frase pode ser usada para traçar um paralelo em relação ao hábito de leitura na sociedade.
Uma pesquisa da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, e do University College London, na Inglaterra, aponta que o número de pessoas que recorrem à literatura em momentos de lazer caiu drasticamente ao redor do mundo, especialmente nos últimos 20 anos. Um fenômeno que pode estar ligado a diversos fatores contemporâneos, especialmente ao imediatismo digital.
Mas, na contramão desse processo, os “Clubes do Livro”, grupos com auge especialmente por volta da década de 1980, em especial com o clube de assinatura Círculo do Livro, que chegou a ter 800 mil inscritos no país, voltaram a crescer. Com os mais variados tipos de públicos e debates, o formato parece caminhar para reaver a época de ouro.
Necessidade intrínseca
A psicóloga Anita Ducastel explica que esse resgate está relacionado principalmente à necessidade intrínseca do ser humano de socializar e reforçar conexões neurais, além de trazer diversos benefícios para o cérebro, pois incentiva os participantes a discutirem ideias e interpretarem histórias, fortalecendo o raciocínio crítico e a compreensão de textos indo além da leitura de forma superficial.
“A interação em grupo ajuda a manter o foco, ativando áreas importantes do cérebro como a memória e a linguagem, auxilia na prevenção de doenças cognitivas, principalmente reduzindo os níveis de cortisol, que é o hormônio do estresse, combatendo a solidão e conectando as pessoas, que é vital para a saúde mental e longevidade”, detalhou.
Anita destacou ainda que a leitura em grupo fortalece habilidades sócio-emocionais e a inteligência, além de promover a interação com outras pessoas, evitando o isolamento do indivíduo no “rolamento de feeds”, o que “já foi provado que adoece muito a mente”.
“A discussão em grupo faz com que os leitores busquem os mínimos detalhes, aumentando sua atenção aos conteúdos e proporcionando uma experiência rica em uma ‘ginástica mental’, que une o prazer intelectual da leitura com o privilégio da interação social. Uma reconexão humana através da literatura faz com que os leitores possam estimular a empatia através das discussões dos personagens e narrativa, ajudando o cérebro a praticar e a se colocar no lugar do outro”, completou.
Busca por conexão
Essa “conexão” mais próxima foi o que motivou a jornalista, colunista literária da Folha de Pernambuco e influenciadora digital Duda Menezes a criar o “Expresso dos Leitores”. Desde 2016 a jornalista faz cronogramas de leituras conjuntas no seu canal do YouTube. Porém, depois de um tempo, seus seguidores passaram a pedir por algo mais “fechado”.
“O pessoal que entra, geralmente, já me conhece e sabe o tipo de leitura que eu gosto de fazer, então são pessoas que se identificam comigo. No entanto, também entram aquelas pessoas que querem diversificar o seu gênero literário, ler coisas que às vezes não leriam sozinhas, e eu acho que essa também é uma das principais coisas de se participar de um clube de leitura. Você se desafia a sair da sua zona de conforto e optar por leituras que normalmente você não começaria neste momento”, compartilhou a influenciadora.
A diversidade de opiniões e reflexões após as leituras, de acordo com Duda, é outro fator motivador do formato.
“Quando a gente vai conversando ao longo da leitura, a gente expande os horizontes. É uma das coisas que eu mais gosto durante a leitura conjunta. É muito legal ver como um livro vai impactar de formas diferentes cada pessoa”, afirmou.
Para a produtora cultural Anita Presbitero, que atua como professora e mediadora de leitura em escolas da rede pública, em uma era digital, onde muita coisa é rápida e superficial, os clubes do livro criam espaços de pausa, escuta e aprofundamento. “Vejo esse crescimento como uma forma de resistência cultural e também como um jeito das pessoas reconstruírem vínculos através da literatura”.
Resistência
Da necessidade de “trocar leituras” com outras mulheres e também de criar um espaço seguro, plural, feminista e horizontal, onde a leitura fosse acessível e empoderadora, nasceu o clube “Floriterárias”, co-fundado por Anita.
“O mais bonito é perceber que quando uma mulher compartilha como um livro atravessou a vida dela, isso desperta curiosidade e identificação em outras. A leitura deixa de ser só consumo e vira uma experiência compartilhada”, refletiu.
O projeto ultrapassou as fronteiras literárias e atualmente atua também em causas sociais. Os encontros mensais são também pontos de arrecadação de doações de produtos de higiene pessoal para mulheres encarceradas, em parceria com o projeto Liberta Elas.
Para os leitores, o sucesso dos clubes parte da vontade de retomar reuniões de grupo, com trocas presenciais e sinceras. Além disso, existe também uma grande busca ativa por propósito coletivo.
Propósito coletivo
A publicitária e influenciadora digital Letícia Rossiter criou o “Li Com Leca” pensando em se aproximar e criar conexões genuínas com suas seguidoras, a partir de debates de temas relevantes do universo feminino e focando em autoras brasileiras contemporâneas.
“Todo encontro temos uma convidada voltada para o tema principal da leitura, e fazemos uma roda de troca de ideias coletiva”, ressalta a publicitária.
Letícia, que trabalha com internet, destaca a importância e contribuição de movimentos que vêm surgindo em redes sociais mais novas, como o Tiktok, e têm ganhado cada vez mais adeptos como uma importante ferramenta na luta para a manutenção do hábito da leitura como lazer.
“É muito importante fomentar a leitura em tempos em que as pessoas têm tão pouca paciência para se aprofundar em textos longos. Esse desejo também surge de querer gerar encontros presenciais em uma geração digital, exausta de conexões rasas. O movimento “#booktok” do Tiktok só nos mostra que há um movimento entre a geração mais jovem de ler sobre diversos assuntos, seja por lazer, hobbie e interesses quaisquer. Não à toa, nossas feiras e bienais estão tão cheias. Precisamos voltar a lotar as livrarias, e o Li Com Leca é um pouco sobre isso”, defendeu a leitora.
Corroborando com o pensamento de Letícia e provando que, da maneira correta, a internet pode contribuir para um movimento reverso e aumentar os índices de leitores ao redor do mundo, a analista de tecnologia da informação, Caroline Arruda, criou o Tired Bookish Girls (“Clube do Livro de Garotas Cansadas”, em tradução livre).
“A ideia central do Tired Bookish Girls é manter o hábito da leitura na nossa vida, mas sem transformar isso numa meta impossível. Temos uma comunidade no WhatsApp, onde trocamos impressões ao longo do mês. No final do ciclo, realizamos uma discussão por videochamada para compartilhar pontos de vista e os destaques da leitura”, explicou Caroline.
Além disso, o clube se expande para projetos paralelos de incentivo à leitura. O “Correio Literário”, em que um livro circula entre as leitoras e se transforma num objeto vivo, com anotações, marcações e memórias. E o “Tired But Hot (“Cansadas, mas saradas”, em tradução livre), um desafio no GymRats, em que a constância na prática de atividade física vale livro.
“Ler em grupo muda completamente a experiência. Muitas vezes, são as próprias inscritas que me incentivam a começar ou continuar uma leitura quando estou mais desanimada. Sempre tem alguém compartilhando o quanto amou a história ou o quanto se surpreendeu. Muitos livros eu só terminei porque havia outras mulheres lendo junto, comentando, incentivando. E mesmo quando o livro não é tão bom, a experiência coletiva transforma”, citou a desenvolvedora.
No Recife, algumas livrarias já abraçaram a causa do resgate de leitores assíduos e oferecem espaços para que os clubes se reúnam de maneira totalmente gratuita, como é o caso da Livraria do Jardim, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife.
“Para nós, sediar isso é super importante, faz parte do escopo da loja em si tentar abrir as portas para o estudo de leitura dentro da livraria e incentivar essa prática tão rica”, declara o gerente Erydson Alves.
Poder do hábito
Sobre a riqueza da prática da leitura, o neurologista Gustavo Leimig observou que o ato de ler é uma das atividades mais completas para o cérebro. Estimula o raciocínio, a imaginação, o senso crítico, a memória e a curiosidade, além de retardar o envelhecimento cerebral, ajudando na prevenção de doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer.
“Tem também um efeito sobre fatores emocionais, melhorando estados de ansiedade, depressão, sofrimento e estresse. Além disso, uma simples interação social já melhora a cognição e a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de aumentar as conexões entre as células nervosas, melhorando o desempenho intelectual de uma forma geral. Por isso, grupos de leitura e discussão literária são o ‘melhor dos mundos’, pois unem os indivíduos e melhoram a atividade integral, cultural e cognitiva”, frisou.
Leimig reforçou ainda que o ser humano é um “animal gregário”, ou seja, vive em grupo de forma organizada. Por isso, a tendência moderna ao isolamento, seja por qualquer razão, é biologicamente antinatural. Por isso, “essa tendência de se reagrupar, seja em clubes, associações ou qualquer outra forma de interação coletiva, é esperada e essencial da natureza humana”, conclui o médico.
Texto produzido pela Folha de Pernambuco e compartilhado pela Andelivros. Créditos para a repórter Gabriela Castello Buarque.